Eliane Leal Vasquez

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EDUCAÇÃO MATEMÁTICA PENITENCIÁRIA EM AÇÃO: UM RELATO DE EXPRESSÃO CORPORAL SOBRE O CONCEITO DE FAMÍLIA A PARTIR DO OLHAR DO ALUNO-PRESO

 

Eliane Leal Vasquez
Universidade Católica de São Paulo-PUC/SP

1. Planejamento:

Este trabalho trata de uma experiência da Educação Matemática Penitenciária  desenvolvida com alunos-presos da Escola Estadual São José, localizada na área interna do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá – IAPEN/AP, como parte do projeto interdisciplinar intitulado “A Festa da Família”, tendo por objetivo refletir sobre o papel da Escola do Cárcere para o processo de reintegração social da pessoa em custódia do Sistema Penitenciário a partir da discussão: Qual o conceito de família para a sociedade cativa considerando-se o contexto escolar-prisional? A referida questão norteou o ensaio e resultados da “Expressão Corporal: O Conceito de Família na perspectiva do aluno-preso” sob coordenação da professora de matemática daquela instituição-prisional .

cuadro
A composição dos gestos da expressão corporal foi sugerida pelos próprios participantes durante diálogos no ensaio que foram realizados na sala da biblioteca, dividindo-se em momentos a serem descritos na metodologia deste trabalho. Esta atividade educacional mostrou a adaptação do preso na sua entrada no ambiente prisional, focalizando alguns aspectos das relações sociais dentro do espaço prisional e escolar para a socialização do conceito de família elaborado por eles, considerando os efeitos decorrentes da prisonização.

2. Marco Teórico: 
A fundamentação teórica desta atividade educativa sustentou-se em duas abordagens conceituais  Programa de Pesquisa Etnomatemática e a linguagem da comunicação não-verbal (Ubiratan D’Ambrosio, Pierre Weil & Roland Tompakow). Cabe ressaltar que D’Ambrosio por meio de suas publicações em etnomatemática nos chama atenção à pluralidade cultural do grupo de alunos com quem atuamos na prática docente, no que tange as diferentes técnicas de explicar, entender e interagir com o ambiente social, cultural e natural que os alunos fazem parte. Por outro lado, Weill e Tompakow, nos alertam quanto      à possibilidade que pela linguagem do corpo podemos dizer muito aos outros, além do nosso corpo ser um centro de informação para nós mesmos. Ainda segundo estes autores, “quando estamos em grupo, nossa linguagem corporal anseia por afirmar o eu”. Ademais, a Lei de Execução Penal  e Parâmentro Curricular Nacional de Matemática (Lei No 7210/84 & PCN/Brasil), remete-nos a repensar o curricular de matemática frente à especificidade cultural do aluno-preso atentando para as dificuldades da manifestação verbal da sociedade cativa decorrente da dicotomia latente entre a cultura do controle social dentro da prisão e a cultura escolar que se instala por meio da presença dos professores num espaço interno desta com finalidade de proporcionar-lhes a assistência educacional.

3. Metodologia:
A atividade  foi desenvolvida a partir de um convite durante aula de matemática       para a formação de um grupo para apresentação de uma expressão corporal. Em seguida, quatorze alunos-presos manifestaram interesse em participar da atividade proposta, sendo  seus  procedimentos alicerçados na metodologia de projetos. Para Heloísa Lück, um  projeto é  “um processo de mobilização e promoção de sinergia para a ação organizada e consistente. Corresponde à definição de um compromisso de ação, nesse sentido tanto é um documento, como um ideário”. A elaboração das cenas de linguaguem não verbal foram estruturadas a partir das seguintes questões: O que é família para você? Por que você vem para a escola? Numa frase defina família.
Com abertura para o diálogo sobre o tema “família”, alguns alunos-presos disseram que: “Temos que primeiro falar sobre o que é está na prisão. Mostrar a chegada do preso novato no cadeião, a adaptação ao grupo, o viver lada a lado com a morte, o sofrimento por perder a liberdade, a conversa com o silêncio, o esquecimento dos pais ao filho engaiolado, e às vezes a solidariedade que aparece para quebrar a rotina através de poucas pessoas, para depois pensar na escola ou família” .
Dado o argumento exposto pelos alunos-presos, dividimos a expressão corporal em três momentos (Faces da Prisão - Escola do Cárcere. Uma extensão da cela  - Interação com público presente para apresentação do conceito de família) de modo a contemplar as reminiscencias pessoais mencionadas, com distribuição de alguns jogos de tangran e torre de Hanói produzidos pelos alunos-presos, cartões da expressão corporal definindo a palavra “família”, entre outros objetos a pessoas do público  organizados numa cesta que foi chamada de “cesta do conhecimento”.

4.    Resultado: Ser Família é acreditar na transformação do ser humano.
A expressão corporal realizada com os alunos-presos da Escola Estadual São José que desenvolve assistência educacional a presos e internos do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá,  ratifica o notório conjunto de mudanças  que deverão ocorrer nas Escolas do Cárcere no Brasil. Nesse sentido, vale lembrar que recentemente estas foram  registradas por profesores, alunos-presos, gestores/agentes penitenciários, pesquisadores do sistema prisional e educação de jovens e adultos no Relatório Nacional para Educação na Prisão , com finalidade de elaborar a Política Pública para Educação na Prisão - PPED.             
Com efeito faz necessário esclarecer a relação entre os eixos temáticos “Gestão, Articulação e Mobilização ;  Formação e Valorização dos Profissionais; e Aspectos Pedagógicos” contidos no relatório citado, com o resultado da manifestação corporal apresentada pelos alunos-presos do Sistema Penitenciário do Amapá no que tange a percepção destes em torno da palavra “família” e suas implicações para o professor de matemática da prisão.

Pela atividade realizada destacamos as seguintes:

• Aspectos Pedagógicos: Sobre a metodologia de ensino e os silêncios 

Quanto a este componente, a expressão corporal nos permitiu observar da urgência de metodologias de ensino adequada para a realidade do espaço-escolar-prisional, considerando  os problemas educacionais específicos que enfrentam professores de matemática e alunos-presos para a comunicação verbal entre eles. Nesse contexto, esclarecemos que a atividade educacional nos possibilitou  comprovar que mesmo o corpo discente estando no microcosmo da instituição prisional que executa a assistência educacional, alguns destes não se sentiram  com o direito de comunicar-se verbalmente, mas manifestaram-se através das representações em gestos.
Pela realidade vivenciada durante as reuniões de ensaio da expressão corporal, percebemos que a mesma naquele período se transformou numa “ponte em gestos” para  estabelecimento da comunicação não-verbal entre professora, aluno-presos e o grupo entre si, à medida que os participantes expressavam-se pela linguagem corporal quanto às lembranças tanto em vivenciar e testemunhar do encontro de outros presos com a cultura prisional, enfocando aos múltiplos significados do silêncio como um terceiro intermediário  no processo de interação entre emissor e receptor na linguagem corporal dentro do contexto prisional.
Por conseguinte o silêncio aliado à desconfiança  ganha várias intepretações para uma pessoa que esteja passando pela prisonização. Nesse caso, a  adoção de atitudes e linguagem local (silêncio como aprendizagem), reconhecimento de que as decisões devem ser decorrentes ao interesse do grupo (silêncio como respeito imposto), a aceitação inicial do preso que assume um papel inferior dentro grupo, além da assimilação de fatos concernentes a sua organização (silêncio como subordinação), ou ainda, em se tratando daqueles que não acatam totalmente a essas transformações de comportamento (silêncio como recusa).

• Professores de matemática. Da formação para o ensino na prisão

Quanto a este aspecto, a nossa atuação como coordenadora da expressão corporal nos possibilitou compreender da necessidade que os professores de matemática têm em conhecer no âmbito teórico as realidades inerentes a situação de confinamento dos alunos-presos, haja vista, que pelos depoimentos e comunicações não-verbais que foram traduzidas  pelo movimento de mãos, rostos e ações em grupo revelaram uma face da prisão para mim deconhecida até aquele momento. Vale ressaltar pelo contexto apresentado, uma consideração de Michel Foucault:

No caso da prisão, não haveria sentido em limitarmo-nos aos discursos formulados sobre a prisão. Há igualmente aqueles que vêm da prisão: as decisões, os regulamentos que são elementos constituintes da prisão, o funcionamento mesmo da prisão, que possui suas estratégias, seus discursos não formulados, suas astúcias que finalmente não são de ninguém, mas que são no entanto vividas, assegurando o funcionamento e a permanência da instituição. É tudo isto que é preciso ao mesmo tempo recolher e fazer aparecer .         

    É interesante observar que a expressão corporal nos permitiu adentrar um pouco da lógica do discurso do corpo discente da Escola Estadual São José, uma vez que, os gestos representados por eles no decorrer da atividade indicavam algunas faces da experiência de pessoa em privação da liberdade, as quais não são do conhecimento dos professores.
Nesse sentido, é oportuno salientar que se os efeitos da prisonização podem alterar em níveis diferenciados a comunicação verbal no que tange os alunos-presos, esta realidade nos leva a pensar na possibilidade de múltiplas dificuldades enfrentadas por eles, por exemplo, para que se permitam romper com as “regras internas” criadas e vividas pela sociedade cativa  na instituição-prisional, enquando estão nos espaços (sala de aula e biblioteca) que demarcam a Escola do Cárcere  o que possivelmente interfere no proceso ensino-aprendizagem.
Pelo exposto acima, consequentemente a relação da expressão corporal com a necessidade da  formação/valorização dos profesores que atuam nas prisões evidencia em parte o desconhecimento do professor quanto aos problemas prisionais. Em outras palavras, concordamos com o Relatório Nacional para Educação na Prisão, quando diz: Ao ingresar no cotidiano do sistema prisional, o profesor [deverá  passar] por um processo de formação, promovido pela Pauta responsável pela Administração Penitenciária em parceria com a da Educação, no qual a Educação na Prisão seja tematizada segundo os marcos da política penitenciária nacional .   

• Participantes da expressão corporal e seu ponto de interseção:

Outro aspecto relevante, observado através da expressão corporal é o fato da perda de identidade tanto do aluno-preso, como do professor no espaço escolar-prisional. Neste caso  trata-se respectivamente da identidade pessoal e identidade profissional, uma vez que, o preso ao ter que se adaptar aos elementos constituintes da cultura prisional, passa a assumir             a identidade do grupo do pavilhão ou prisão, enquanto o professor tem a sua identidade profissional trincada ao reconhecer o seu despreparo para atuar na árdua tarefa do processo de reintegração social do apenado, porém, ambos compartilham nas suas dores um ponto de interseção em comum, que faz destes parceiros na Educação na Prisão  o descaso com a efetiva execução com qualidade a assistência educacional ao preso e interno no Brasil, resta-nos questionarmos: Até quando teremos esta realidade?
5. Conclusão:
Os resultados da expressão corporal nos alertam para a necessidade de não apenas teorizarmos sobre os problemas próprios do processo ensino-aprendizagem na Educação Matemática Penitenciária, mas conclama aos pesquisadores da Educação Matemática para um debate pela prospecção e visibilidade da Educação Matemática Penitenciária no cenário da pesquisa acadêmica em face do múltiplo papel que ganha a escola dentro da prisão  educar e integrar por meio de um possível diálogo entre a cultura escolar e cultura prisional.             A participação dos alunos-presos nesta atividade educacional nos possibilitou compreender que na prisão algumas “palavras” ganham outros significados, como no caso de família compreendidos por eles não apenas no sentido de pessoa que tem uma relação de sangue, mas as pessoas que constantemente os visitam ou os poucos profissionais que prestam assistência dentro da execução penal e acreditam na transformação do ser humano, uma vez que, novas relações sociais se estabelecem frente à privação da liberdade. Por outro lado, esta realidade corrobora para a construção de conhecimentos - linguagens - comportamentos, que emergem da necessidade de cada grupo de alunos-presos em resolver problemas reais do ambiente prisional ou problemas discursivos de temas que podem ser intermediados pelos professores.

 

 

 

 

A escola do cárcere é para o aluno-preso como uma extensão da sua cela (perda da identidade pessoal e comunicação verbal). A cela é para o preso como uma outra escola (identidade do grupo e subordinação).

6. Referência:

AMAPÁ. Diário Oficial do Estado do Amapá, “Decreto GOV/AP No 1399 de 01 de junho de 2004”, Macapá, Imprensa Oficial, 2004.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Brasília, MEC/SEF, 1998.
_______. Lei de Execução Penal, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L7210.htm, 25  abr. 2006.
D’AMBROSIO, U. Etnomatemática. Arte ou Técnica de Explicar e Conhecer.  São Paulo, Ática, 1990.
_______. Etnomatemática. Elo entre as Tradições e a Modernidade. 2a ed. Belo Horizonte, Autêntica, 2005 (Col. Tendências em Educação Matemática, Vol. 1).
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Trad. de R. Machado. 20 ed. Rio de Janeiro, Graal, 1979.
LÜCK H Metodologia de Projetos: Uma Ferramenta de Planejamento e Gestão 2 ed Petrópolis, Vozes 2003
THOMPSOM, A. F. G. A Questão Penitenciária. Petrópolis, Vozes, 1976.
WEIL, P. & Roland Tompakow. O Corpo Fala: A Linguagem Silenciosa da Comunicação não-verbal. Petrópolis, Vozes, 1986.
UNESCO/Brasil. Relatório Nacional para Educação na Prisão,  http://www.unesco.org.br/areas/educacao/areastematicas/alfabeteja/Diretr... , 15/05/07.
VASQUEZ, E. L. Videocassete VHSC. 30 min. “Gravação da Expressão Corporal: O conceito de família na perspectiva do aluno-preso”. Projeto Interdisciplinar: A Festa da Família no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá. Macapá, Arquivo Pessoal, 2005.                                               
   
7. Palavra-chave: Educação Matemática Penitenciária, Etnomatemática, Conceito de Família